domingo, 7 de outubro de 2007

Distantes

Minha vizinha está grávida. De seis meses. E só agora fiquei sabendo. Dividimos as paredes em casas geminadas, mas quase não nos vemos por conta dos horários de trabalho. Quando a encontrei, dias atrás, levei um susto com aquela barriga, principalmente por ser ela uma atleta, que sempre exibiu aquele corpo torneado sonhado por toda mulher.

Essa notícia me fez pensar no quanto vivemos distantes das pessoas mais próximas nesses dias corridos. Acordo cedo, saio para trabalhar, chego já noite e emburaco em casa, onde também tenho os meus afazeres de mãe e dona de casa (quase) dedicada. Portanto, mal vejo meus vizinhos; muito menos tomo ciência do que andam fazendo de suas vidas. A maioria deles nem conheço.

Até pessoas da minha família, que moram na mesma cidade, custo a ver. São todos assoberbados de atividades, que para encontrá-los é preciso consultar agenda. Inclusive minha mãe. Aos 74 anos se queixa da falta dias em sua semana. E ficamos sabendo uns sobre os outros por telefone, quando sobram minutos para um bate-papo rápido.

Já faz alguns dias que não vejo minha vizinha. Mas tenho ouvido a movimentação de preparo da casa para a chegada da bebê. Soube o sexo assim, sem querer. Da minha cama ouvi uma conversa dela com uma visita amiga. Estavam excitadíssimas, conferindo as peças do enxoval. “Olha que lindinho esse vestido, ela vai ficar uma gracinha, né?”

No último sábado cheguei em casa à tarde e tentei tirar um cochilo. Nada feito. Móveis são arrastados, gente conversando, e uma furadeira insistente rasgando meu tão desejado silêncio para uma soneca rápida. Talvez nem receba a notícia do nascimento da bebê, devido à ‘distância’, mas já imagino minha participação auditiva das choradeiras noturnas, dos gritos e gemidos de cólica, da mãe marinheira-de-primeira-viagem desesperada sem saber dar conta.

Também vou perder o sono, fazer o quê? Ainda tenho um tempo para pensar se vou ficar apenas escutando os intermináveis choros ou se vou levantar e bater lá para oferecer ajuda. Afinal já passei por isso e garanto que não é nada fácil. Não custa nada ser solidário nesses momentos. E já que moramos coladas, “to aí”, de prontidão, para tentar vencer a ‘distância’.

Seja um você também

A gente cria. Escreve. Publica. Livros. Blogs. Comunidades. Mas no vamos ver, vamos viver de quê? A coisa, entre outras coisas, tem me encucado. Andei buscando uma solução. E a encontrei.
Fiquei devendo pra Martha Medeiros no outro post mas me redimo hoje, com citação e tudo. (Morde e assopra é comigo mesmo. Mas não é por ser puxa-saco, ou por insegurança, ou por pena. Nada disso. É que digo o que penso, e se for de amigo e não for o melhor, o mais elogioso, logo me arrependo. Não de dizer a minha verdade, hum, mas de pensar e sentir aquilo, fazer o quê.) Na Revista deste Domingo, Martha mostra porque é mesmo uma deusa, vai lá. Concordo com ela em conceito, exemplo e atitude, vejam só: "Não se sinta culpado por pensar em si próprio. Cuide do seu espírito, do seu humor. Arrume seu cotidiano. Agora sim, vá em frente e mostre aos outros como se faz."
Detto e fatto, bem, não é tão fácil. Arrumar como? Diz o Globo que existe escassez de 20 mil engenheiros no país, em todas as áreas. Bem. Nem todo mundo quer (ou pode) ser engenheiro. E a vida de artista, como é que fica? De escritor? De blogueiro? Vender livro, já se viu, dificilmente é solução pra bolso. Emprego em jornal, nem pensar, como disse uma amiga no outro dia: "nem dando pro Xexéo", ah, tá bom. Melhor deixar pra lá. A gente tem o que dizer, vai e diz: escreve no blog, e não é coisa pouca. Exige pesquisa, criação, revisão e edição, fotos, links, cuidado. Ou vocês pensam que só leva um segundo? Não, gente. É trabalho, trabalho sério. Do bom. Vai daí que eu já tinha pensado: com essa audiência toda, imagine se cada um que te curte resolve te patrocinar, hum, digamos, com cinco reais por mês. Nem falo daquelas visitas todas que o contador mostra, não mesmo, falo dos 10 por cento que te lêem mesmo, ficam mais de uma hora contigo todo dia, sacou? Hum... um, dois, cinco reais, mas só quando a gente quiser, se der vontade de apreciar um texto bom, sem vínculo ou compromisso. Gostou? Patrocine. De NY, comenta aqui no blog a Simone K. : "Como sabe o doar aqui, ou a falta dele, pode até ser um motivo de vergonha. Trabalho voluntário é a forma mais popular, não? Se a gente não faz, o vizinho reclama."
Ah, sim. Brasileiro não dá nada de graça pra ninguém, mas bem que a gente podia mudar um pouco isso. Um amigo meu, artista como eu, achava humilhante um link que eu tinha aqui no blog, pra doações no PayPal: acabei apagando. Mas continuei pensando: uai, gente, humilhante por quê? É humilhante ser apreciado? Ser pago por seu trabalho? Já faz um bom tempo que me debato com a questão; como "trabalhadora da luz", o dilema era o mesmo: trabalhar pode; cobrar não. E nesses tempos de ascensão, quem é esotérico sabe bem do que estou falando: fala-se muito em mudanças radicais, em um novo ambiente de altíssima energia onde cada um só faz o que lhe dá prazer. Muito belo. Muito bom. Mas a pergunta persiste: se o nosso mundinho tresdê ainda funciona à base de dinheiro, como é que se vai sobreviver? Novas formas de viver? E quais seriam? Hein?
A web é uma resposta, com certeza. Uma mente coletiva: troca de idéias e ideais, um celeiro criativo de tudo. Dos engenheiros (a troco de salário, gente, pra eles não falta emprego!) vêm as ferramentas. Dos artistas, o conteúdo: todo mundo usa e abusa, e online, se doa de graça, não tem o menor problema. A web já está no futuro, no admirável mundo novo onde a gente só faz o que quer, e não precisa de dinheiro: é muito maior do que o Second Life. It's the One and Only Life.
Eu penso, gente, e penso muito. Vai daí que surgiu essa idéia de patrocínio voluntário de blogs. Gostou? Patrocine. Não espere o governo, o bolsa-família, o Ministério da Cultura, o prêmio, a lei, a corrupção. Nem precisa de projetos complexos, de concorrência ou aprovação. Gostou? Patrocine. Simples assim.
Pode ser que funcione. Pode ser que não. Mas é, certamente, uma opção. Faço como a Martha diz: penso em mim, começo por mim, ensino como se faz, e... bem. Espero que façam o que eu digo. E faço. Bom domingo pra vocês, e pra mudar de vida hoje mesmo, seja um MEMO* você também.

* MEMO: mecenatomoderno.org, um jeito web de mudar sua vida, e a vida de quem você curte. Visite o site. Participe da Comunidade.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Sobre os Filhos e as Pedras

Se Simone Silveira

Criar filho é semelhante ao ato de jogar a pedra na água no intuito de fazê-la derrapar, ou na melhor da hipótese, saltar graciosamente na superfície cristalina afim de que conquiste o infinito.

A pedra é escolhida ao acaso, pois elas estão lá soltas no mundo—rua, beira do rio, floresta. Mundo este que não existe até que nos damos conta dele. Agora, o mundo uma vez formado, nos presenteia com seus elementos minerais, diria mesmo ancestrais. É preciso que admiremos a grandeza da sua extensa existência. Assim, é possível tratá-lo com maior dignidade, já que, nos últimos tempos, temos coniventemente ignorado sua fragilidade e contribuído para a sua devastação.

Entre tantas pedras, há de se escolher uma com a forma plana e de preferência, arredondada. Há sempre a dúvida cruel se a eleita entre tantas é perfeita o suficiente para o jogo. Neste caso, e em quase todos na vida, uma escolha, é realmente a falta de escolha, pois já nos acostumamos a carregar no peito e na cabeça, idéias pré-definidas. Assim se passa quando se tem um filho. Bem no fundo, na hora do nascimento, a dor latente, a bacia dilatando, não importa ser a criança homem ou mulher. É imprescindível que seja saudável. Somos todos animais. Muitas mulheres como eu, dividem a mesma experiência de contar os dedos dos pés e das mãos do bebê nos primeiros segundos de vida dele. Essencial mesmo é que ele nasça. Ponto. Conheço quem pariu uma criança morta. Esta dor eu jamais desejo ao meu semelhante. Conheço uma mulher que pariu um filho doente. Ela é o meu melhor exemplo de mãe—paciência infinita, dedicação integral sem espera de retorno, amor incondicional.

Uma vez a pedra na mão, as outras deixam de existir, assim também se passa com os filhos. Quando miramos a sua fisionomia pela primeira vez, é como se já o conhecêssemos por toda a eternidade. Não há esforço. Esta familiaridade é instinto. Depois do reconhecimento, é hora de estudar a melhor forma de jogá-la na água para que salte em intervalos regulares. O intuito é que ela vá longe, muito longe. O corpo e as mãos se curvam em um ângulo específico, afim de que ao lançar a pedra, ela perfure o ar rodopiando em círculos magistrais, seguidos de um arco perfeito rumo à água. Sem quase tocar a superfície e vencendo a tendência natural de submergir-se, a pedra finalmente derrapa harmoniosamente sobre ela. Esta arte, aparentemente tão simples é como a arte de se criar um filho. Sua complexidade vem com a primeira febre, a primeira briga na escola, o primeiro palavrão, a primeira dor, o primeiro amor e outros primeiros que nos pegam despreparados e nos põem tão confusos como nossos filhos. Bem no fundo, somos todos marinheiros de primeira viagem, inclusive aqueles, como eu, que se julgam frutos de uma geração esclarecida —tudo pelo diálogo, e que defendem o conceito de ser a criança dotada de direitos e deveres como qualquer outro indivíduo. Na hora do aperto, há de se consultar os livros. To Listen to a Child, do Doutor Brazeton tem sido de suma importância como outros dele. A sogra também é elixir com toda a sua experiência de vida. As vizinhas, e até o porteiro tem o seu lugar nesta difícil arte.

Maternidade é certamente um ato natural, assim como muitos, por exemplo, comer de garfo e faca, porém é necessário a aprendizagem. Amamentar talvez tenha sido uma das mais doloridas, fisicamente e emocionalmente, nos meus primeiros meses como mãe. Tudo estava errado. Meu filho berrava. Era fome lhe corroendo o pequenino estômago. Eu me olhava no espelho, seios feridos, tanto sacrifício, qual era o problema? Eu era insistente no meu desejo, agüentava a dor da ferida aberta e os berros desesperados do meu primogênito. Três semanas e nada, a ferida crescia enquanto ele emagrecia. Ninguém me contou como segurar o bebê e dar-lhe o peito. Muita coisa a gente aprende na marra porque nossas mães “esqueceram.” Os vídeos nas aulas de preparação ao parto não é mão na massa. O boneco demonstrativo na aula de Lamaze está longe da realidade de uma criança de carne e osso e esfomiada nos braços. Enfim, sejamos modernas e sem preconceitos. Contratei uma consultora em amamentação e em poucas horas o problema foi resolvido. Me senti realizada como qualquer outro mamífero. Estava alimentando a cria.

Esta crônica era mesmo pra falar de toda a minha incerteza no meu papel de mãe (quem é mãe sabe, nunca sabemos se estamos fazendo a coisa certa... quem é filho também tem lá as suas dúvidas). Depois destas linhas e milhões de cenas rebobinadas na memória consigo derramar as minhas inseguranças e pouco reclamo dos meus filhos. Ela deveria ter começado assim: “Meus filhos até o dia de hoje competem com aqueles que me chamam pelo telefone.” O texto tomou rumo novo, voilà.

Inspiração nasceu de um telefonema pra mim do meu pai. A conversa durou pouco. Meus filhos, sempre educados em todas as outras circunstâncias, menos esta, cortou a minha conversa ao telefone com seus berros, chantagens e apelos. “As crianças no Brasil não são assim não, a gente fala no telefone sem problemas, elas se viram pra lá. Vocês também não foram assim não,” completou meu pai, certo que a nossa cultura brasileira permanece a mesma há várias décadas. Na hora respondi meio que justificando os gritos das crianças, “sabe como é, pai, aqui a gente cria filho muito só, eles se tornam muito dependentes da gente. Por isto não conseguem dividir a mãe,” disse eu, pensando mesmo nas empregadas brasileiras que tomam conta de tudo, que maravilha.

Pela noite me arrependi. Sou uma mãe que escolheu ter um papel ativo na educação de seus filhos. Tudo tem o seu preço. Há de chegar o dia quando poderei entrar no banheiro e curtir minha privacidade sem o receio de ser interrompida, ou telefonar a um amigo e ficar de papo pro ar. Tento lembrar do meu regresso ao trabalho e já posso sair pra jantar ou viajar uma vez ou outra sem que se sintam abandonados. São crianças felizes e seguras. Há um o tempo particular no amadurecimento de cada um. Há de ser ter paciência, eu repito para mim mesma, não posso esquecer. Assim como as pedras jogadas com precisão, a liberdade acontece a cada pulo.



Victor e Henry vendo a chuvar cair no pátio do Cloisters, NYC, 2007

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Dupla personalidade

Habitam em mim duas mulheres bem diferentes. Uma é uma menininha tímida, carente, a rejeitadinha, que se esconde no escuro do armário e até pra respirar precisa da aprovação dos outros. Filha de pais exigentes, se culpa por tudo e não importa o que ela faça nada é bom o bastante, tudo dá sempre errado e há pouca esperança de mudança.
A outra é uma artista: A Escritora. E artista (segundo a voz corrente) é um ser sobre-humano — ou sub, sujeito a interpretações —, sem moral e sem escrúpulos, um assassino cruel e frio que não hesita nunca e se tiver que matar por sua arte, mata. A artista em mim mata a mãe, mata o pai, trai os amigos e age por puro interesse. Beija a lona várias vezes por dia, se levanta, sacode a poeira e ousa oferecer a outra face. Passa por cima de tudo e nada a detém. Se achar que a causa é boa exibe intimidades, grava o sexo com o marido e bota no YouTube. Tortura o tempo todo a menininha que sofre, coitada, forçada sem defesa a impensáveis atitudes. Sem ter como escapar a pobrezinha pena, se arrepende de tudo, vive pedindo desculpas, encharcando de vergonha o travesseiro à noite.
Mas nesta quinta não queremos brigar. Blogaremos na Travessa do Leblon ao vivo, as duas disputando a tapa um sorriso no meu rosto. Quem vai vencer a outra? Não sei, são vocês que decidem. Pra falar francamente, espero que seja a artista, porque a menininha, coitada, de tão fraquinha, não irá muito longe. Já a artista, todo mundo sabe. Quando reconhecido, o artista logo se torna um doce, vira este ser generoso que é simpático em público, banca as noitadas e favorece os amigos. Distribui benesses, sai bem na foto e não recusa entrevista. Trata bem a imprensa, ou será que é a imprensa que trata bem dele? Se compromete até com a chata da menininha, a cuidar direitinho dela e alimentá-la a pão-de-ló, conversar calmamente com ela e a convencer, por a+b, que papai e mamãe erraram desde o início: a menininha e a artista não são inimigas, e pra falar a verdade, foram sempre a mesma pessoa.
Nos vemos todos lá.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A vez de Inocência

De Simone Silveira

Estava distraída quando tropeçou pela primeira e única vez. Inocência havia passado toda a manhã em uma repartição pública para renovar o documento de identificação pessoal.

Chegou às oito horas em ponto quando o funcionário abriu as portas e redirecionou os cidadãos para o guinche de atendimento ao público. A fila andava vagarosamente. A espera era interminável. Uns deixaram de trazer um documento importante, outros esqueceram de pagar a taxa bancária indicada no formulário de renovação. Finalmente era a vez de Inocência. Depois da entrega da papelada, sujou os dedos de tinta e lá deixou sua impressão digital. Foi direcionada à frente da câmera para que a foto lhe fosse tirada. Sorriu. Rabiscou o seu nome à direita do “x” no rodapé do documento e partiu.

No elevador pressionou o abdômen com as duas mãos cerradas. O estômago doía. Comprou jabuticabas de um ambulante nordestino. Encheu a boca delas enquanto corria para atravessar a extensa avenida Rio Branco. Na euforia, suas pernas se embolaram e Inocência tropeçou. No asfalto da avenida Rio Branco as frutas rolavam. O sinal abriu. Inocência tentava se firmar sobre os pés, já nem pensava nas jabuticabas muito menos na dor do estômago. A dor agora era no pé direito. Aguda. As buzinas dirigidas à ela por motoristas impacientes não facilitava a difícil tarefa de se completar a travessia.

Inocência sentiu-se tonta. A respiração se tornou ofegante, apressada. As mãos pingavam suor, um filete dele lhe descia `as costas. Um imenso desejo de não mover-se instalou-se. Os automóveis se aproximavam, passavam por ela. Inocência lá, à deriva, pensamento petrificado. O sinal fechava. O sinal abria. Inocência foi aos poucos perdendo o medo. Primeiramente, o medo da forma automobilística em avanço, depois o medo do som de pneus derrapando, depois dos gritos—Louca! Saí daí, maluca! Quer morrer?

Ela morria. Eles não sabiam. Fio de sangue fazia o seu caminho até o corte, pele rompida pelo osso exposto. O líquido escorria e se misturava com a poeira do asfalto. Ela morria. As jabuticabas não existiam mais. A pele enrugava, a boca rachava, nem os olhos ela abria. Ela morria. Inocência tentara cruzar a grande avenida Rio Branco, verdade maior. Ela havia feito a decisão. Teve a coragem dos loucos, dos santos, dos desvalidos. Os passantes entretanto se acostumaram com a presença em decadência de Inocência — plantada no meio do asfalto, ferida e secando, dia após dia.

Ela poderia ter feito o enorme esforço de atravessar a avenida, agora longa, interminável, apoiando todo o peso de seu corpo sobre o pé saudável. Ela poderia ter gritado alto por uma mão caridosa. Porém houvera o desejo brotando-lhe no peito tão inesperadamente como a fruta que rolara pelo asfalto quente. Ela queria abraçar a própria inércia afim de por à prova a inércia alheia. O outro, de pé no meio-fio, dentro do carro, no alto dos prédios, debruçado na janela, permanecera insensível à sua dor. Ela só precisava de provas. Agora, já as tinha.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Ao Ponto

De Simone Silveira

Sempre me impressiono com os que desejam e mesmo assim escolhem a segurança de um amanhã falido. O sujeito sabe que não é feliz, a Felicidade vem se longe, esmurra a porta, quase rouca pede para entrar. E nada. O Homem até encontra a coragem, coitado, depois de dias, de pegar a chave e colocá-la no orifício da fechadura. A mão treme e ele desiste. A Felicidade sabe da desistência. Ela sabe de tudo. "E aí, meu caro, abre logo esta porta pois seu tempo extenua-se," diz Felicidade. A porta continua cerrada. O Homem esquece que o tempo ainda lhe pertence. Não todo o tempo do mundo, mas o pouco que possui é elixir na palma da mão em concha. "Olá, e aí, que bom ouvir sua voz," diz o Homem. E só. Sim, ela espera um pouco mais do outro lado. Desiste. Não pede mais. Elixir escorrendo por entre os dedos do Homem. Felicidade sabe da fraqueza alheia. "Eu vou bem, um pouco cansada. Ao esperar, me torno pingo caindo de um conta-gotas sem intervalo até nada mais restar senão o vazio preenchido pelo ar, " diz ela. Agora muda, parte mesmo, afinal ela é o que é. Vai não sem antes pendurar uma nota breve e honesta: Felicidade não bate duas vezes `a porta de um homem de alma perdida.

sábado, 29 de setembro de 2007

Haiku no prato



Ontem mesmo, sentada à mesa de um almoço tardio que avançou invasivo pelo jantar a dentro, emiti o parecer arriscado: "não tenho saco pra ler poesia". Escrever sim, já vou logo explicando. De vez em quando acho bom resumir — num golpe único e certeiro de palavras — um pensamento cru, mas já com gosto e textura de iguaria. Depois disso fico uns dois ou três dias observando a cria, a concisão emocional daquilo, repetindo de cor enquanto caminho, cozinho, admiro: revisando, remontando até deixar passar. Mas de ler geralmente não gosto, sei lá, preconceito, ou porque o que encontro costuma ser prolixo, descentrado, desconectado de quem a cria. No Prosa de hoje o Castello explica: "a poesia é, freqüentemente, gerida por bandos estéticos", o oposto exato do silêncio inspirado, da quietude interna, do espaço reservado oferecido à reflexão.
Digo arriscado porque se vê poeta a interlocutora à minha frente, que chamei de irmã mas que agora percebo, faria mais sentido ser filha, enquanto a conversa engole nossa fome voraz de vida. Viu? Parece prosa, mas no fundo no fundo, a gente vê que é poesia o tesão que nos leva por ritmo e rima, com ênfase aguda no desejo avulso, por razões de estilo muitas vezes repetido. São tardes de chocolate, madrugadas de vinho e noites de salmão pra celebrar um encontro que, se confrontado, se veria deliciado com a franca sensação de destino. Mas destino? sabemos que não há.
Nunca tive problemas pra reconhecer milagres. A coisa vem de mansinho, o pão cresce, o tempero certo aparece, e você inova: justo naquele dia resolve uma erva a mais, uma manteiga mole, uma acidez demais, levemente sugerida na consistência conhecida da musse: e se não der ponto? Mas se há milagre — ou talvez: fluência — a ousadia dá certo, e você respira: entende a pausa ativa naquele silêncio breve.
Por mais que se diga, se confira, a conexão exata vem por baixo de tudo, como uma mistura inusitada de ervas. Tudo que se quer é que ela continue ali, numa alquimia não planejada, pouco mais que soprada e que a quietude interna te permitiu ouvir. É por isso que amar, cozinhar, e escrever com algum lirismo pertencem a uma mesma categoria de coisas, e é o que Castello nomeia em seu artigo: a coragem solitária de correr riscos. Coragem ainda maior é a de revelar tão facilmente a intimidade, numa conversa aberta que, sem isso, seria perda de tempo entre comadres: uma zoeira gratuita que não pratico.
Pois foi-se a tarde. Foi-se o encontro mas deixou sua marca: um milagre se é bom não se prende ao tempo, não se resume ao momento nem padece de cronologia; escapa ao julgamento crítico e fala direto ao sentido, sem o crivo cortante da razão. É o mesmo que espero da poesia.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

o pra sempre, sempre acaba meu amigo

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meu amigo, eu te falo é do amor. não desses jurados nas noites de sexta-feira, sob o arco e o álcool da lapa, não. eu te falo do amor da segunda-feira, ainda nas proximidades do antigo aqueduto, entre coca colas e descobertas. eu te confesso meus medos da inexistência do caos. é o caos em nós, latente. dói, amigo, dói, mas passa. isso é o mais costumeiro dos clássicos que a gente ouve, mas é verdade absoluta destilada e engarrafada pra ser consumida aos poucos, homeopaticamente. não é o fim, juro. é o que chamo de dobrar a esquina. o que acontece é que não queríamos. e de repente somos obrigados a sair do canto, levantar as pernas e caminhar por uma calçada que não sabemos onde vai dar. mas do que isso, a crueldade das coisas, somos obrigados a percorrer essa estrada sozinhos, sem ele, sem ela. a gente fica de repente cercado pelo umbigo. restamos nós, os nós. e a gente se dá conta que não sabe nada acerca do mundo, e tanto que a gente estudou! nietzsche, platão, buda, heidegger, lispector, saramago, freud. ninguém nos livra, nenhum deles desce do altar e nos convida pro bom vinho barato nos bares da vida contornados pelo arco. talvez a culpa seja do bonde, das escadarias coloridas, da vastidão de gemidos ecoados pelos becos sujos, da fumaça de maconha que deixa difuso o ar. os culpados somos todos nós, que engolimos direitinho a conversa boba de que eu sei que vou te amar por toda minha vida eu sei que vou te amar. sempre insistindo nas eternidades. tsc tsc tsc. vinte e quatro horas de cada vez e tudo ao mesmo tempo agora. o mundo é grande demais e gente não dá conta mesmo. talvez a solução seja aceitar, fingir que é melhor assim, fazer o jogo do contente, do feliz, do otimista. eu não sei a solução, nem sei se sobrevivi, se saí ilesa dos idos sete anos e meio, eu não sei. mas se conselho fosse bom, se servisse, se adiantasse, se fosse exemplo, eu te diria:
…………………….olha, chora toda a tua dor. chora mesmo, em prantos, no colo da mãe, do pai, dos amigos, dos irmãos, dela mesma. chora no espelho, no trem, nas ruas cheias de sol, atravessando passarelas, zona norte, zona oeste. chora o tempo necessário que não deve ultrapassar tua existência. é o luto. aceita essa dança nova. aceita que alguém sacou que pode viver sem ti, e aí um dia tu descobre que, apesar de menos colorido, tu pode viver sem ela. há coisas que não podemos modificar, tu sabe. e, embora eu odeie ser contrariada, aprendi isso e fico muito agradecida por tudo. nada é definitivo, graças à deus.
viva teus dias, depois da chuva imensa, como se nessa nova rua, as flores te saudassem.. e saúdam! o fato é que nunca tu havia prestado atenção nisso antes. depois que parar de chover, abre as janelas e portas. pode ser aos poucos, pode ser com fúria. abre os braços, os espaços todos. deixa o novo, a nova, te apossar inteiro. uma dica importante: isso aí doendo, isso que tu chama amor, não passa, o poeta estava certo. só que é preciso saber que o amor liberta. e é por isso.

tu me sabes:
é amor.
..........
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segunda-feira, 24 de setembro de 2007

aniversario

Com a calma, vejo a mão da minha mãe na minha. Minha timidez facial - que um namoradinho batizou com propriedade - tem um quê da boca da minha avó. Que era idêntica a mim quando era bem jovem. O que eu quero dizer é que só agora eu vejo, em mim, minha família. O franzido de boca da dona Lourdes está aqui, quando dá preguiça da conversa. As unhas da dona Cecília são mais cuidadas e sempre vermelhas mas eu vejo sua mão na minha mão. Minha boca anda mais fina. Meu pescoço continua longo - o que um namoradinho bonzinho chamou de moça de Modigliani. A voz eu reconheço quando converso com quem amo. Senão, tem um timbre de desespero. Os quadris, eu já tinha visto, ganharam um plus que eu reconheço nas amigas de faculdade. Teve um ombro que deu problema na volta da Bahia. O acupunturista diagnostica responsabilidade - para mais ou menos - e desejos inconfessáveis. Morro de rir. Quem não te conhece que te compre. Tudo faz um sentido inexplicável. É onde é bonito. Mesmo que seja a calma.

domingo, 23 de setembro de 2007

Por um Fio de Memória

De Simone Silveira
(dedicado à Jeanette Munõz Schrag, filha de Consuelo Perez)

Era o aniversário dela, senhora Connie, 86 anos, residente há dois, na casa de repouso Centro para Idosos Pilar.

—Olá, Connie, como está? Feliz cumpliãnos, eu lhe desejei em sua língua materna. Ela riu e me perguntou se iria visitá-la na manhã seguinte. Eu lhe disse viver a cinco mil quilômetros dela. Teria que planejar uma viagem para vê-la brevemente. —Você vem me visitar amanhã?, repetiu ela, como se a pergunta fosse tão fresca como seus anos adolescentes, naquelas tardes que antecederam a Segunda Guerra Mundial.

Connie foi mulher à frente do seu tempo. Enquanto as meninas bordavam, ela passava as tardes num aviãozinho bimotor sobrevoando o vilarejo na companhia de Armand, cadete da aeronáutica.

Ele era lindo, sempre diz Connie, com lágrimas quase secas minando dos olhos e revirando as poucas memórias que ainda carrega. Casaram-se e tiveram uma filha. Ele foi servir ao país na guerra. Ao término desta, veio o alívio, que durou uma fração de tempo de uma vida feliz. A menina tinha três anos de idade quando receberam o telegrama informando à família que o avião pilotado por Armand trazendo prisioneiros de guerra tinha sido abatido pelos alemães durante a decolagem. Em solo francês jaz o corpo do marido.

Connie, viúva aos 24 anos, ainda casou-se mais quatro vezes. Separou-se de todos eles, sob a alegação de que os ex-maridos, sem exceção lhe cortavam as asas. Se tornou psicóloga. Comprou carros conversíveis velozes. Virou pintora de paisagens bucólicas—as planícies amareladas pelo sol insistente do Novo México e a cidade de San Francisco sob a neblina farta. Não bastando os pincéis, voltou-se à arte primitiva de fazer vasos de cerâmica. Na roda, ela girava e moldava suas peças, todas disformes, livres da exatidão, da linearidade da forma que jamais vivenciou.

Connie, agora, lembra-se de muito pouco, nem chora quando fala de Armand. Ainda não esqueceu que é mãe de uma filha. Sua memória é um fio frágil e delicado, como os fios de ouro utilizados em bordados de capas reais na Idade Média. Eu faço o erro grave de perguntar-lhe se gostaria de rever seus bisnetos. Ela se assusta. —Bisnetos, tenho eu bisnetos?, responde ela com palavras trêmulas seguidas de uma gargalhada potente, confusa, louca. Silêncio. Ela me pergunta se irei visitá-la no dia seguinte. Desligo, ciente de que eu também, já caí em esquecimento.