sexta-feira, 18 de abril de 2008

Exercício desconfortável

Mudar: Trocar de aspecto, natureza; trocar uma coisa por outra; variar; remover de um lugar; deslocar-se de uma casa para outra; transformar-se. Esses são alguns dos significados de uma palavrinha que assombra a cabeça de muita gente. Mudar ou mudança. Para uns é novidade; para outros é dor. Há pessoas que vêem nessa palavra um novo sentido para a vida, novos rumos, novos ares. Outras sentem ameaça, têm medo, não querem sair da zona de conforto.

Mudar é o próprio sentido da vida. Mudamos a cada segundo, desde que nascemos. Trocamos de células, de tecidos, desenvolvemos nossas capacidades motoras, engatinhamos, andamos. Aprendemos a falar. De gugu-dadá avançamos para papai, mamãe, angu e daí para a frente não paramos mais de absorver as mudanças que a vida nos apresenta dia após dia.

Das transformações naturais, passamos a ser, digamos, empurrados às mudanças propostas e impostas, nas mais diversas situações, sejam elas familiares, profissionais ou de qualquer tipo de relacionamento. Um casamento, um filho, outro filho, o casamento que acaba, viver sozinho, outro casamento. Um emprego novo, ser demitido, um cargo novo, mudanças na estrutura organizacional da empresa, uma nova equipe, um novo chefe, um novo subordinado. Entrar para a faculdade, formar-se, fazer uma pós-graduação, mestrado, doutorado. Tudo na vida propõe mudança, quando tomamos qualquer decisão ou quando a vida decide por nós. E podemos optar por mergulhar nesta aventura ou ficar parado, cristalizado de medo, esperando ser engolido pelo destino. Piração?

Parece que sim, mas a própria psicologia nos explica que toda mudança pode significar algo como uma morte. Porque é uma fase, um tempo que definitivamente não volta mais. O fim de uma vida, para começo de outra. Acabou, perdeu, e perda é morte, e quem não tem medo da morte? É daí que surgem sentimentos próximos ao pânico que chegam a levar muita gente aos consultórios psiquiátricos para longos tratamentos químicos, que vão ajudar o cérebro a concatenar as idéias, de acordo com as novas perspectivas.

É só olhar para dentro ou para o lado e nos deparamos com essa realidade crua, ou cruel. A vida nos coloca diante de situações de mudanças das mais variadas formas e isso é sempre positivo, claro. Mas, muitas vezes somos forçados a mudar a partir da perda de um ente, de um casamento desfeito, o que costuma ser muito doloroso. A vida nos aperta, nos coloca contra a parede, como se dissesse: “É sua chance de se tornar uma pessoa melhor”. E agora, aceito ou não? Em todo caso é uma grande oportunidade de abraçar o novo, seja qual for o jeito que se apresente, e sorver até a última gota.

Por outro lado, volto à questão lá de cima, o medo de sair da zona de conforto, da comodidade, da fantasia criada para escamotear inseguranças, incapacidades e incompetências. “Enquanto estou aqui, debaixo do tapete, ninguém vê a verdadeira sujeira que eu sou”. Quem não conhece alguém assim? Cá pra nós, aqui no pé do ouvido, se já temos problemas demais a enfrentar com nossas próprias mudanças, o que acha de alguém assim ao seu lado? Ninguém merece!

O 'transformar-se' não é nada fácil pra ninguém, ao contrário. A reforma íntima, a constante mudança interior que nos abala pra frente é um processo natural, mas nos mobiliza a pensar, a exercitar o raciocínio, a inteligência. Nos coloca frente a frente com a ética, a moral, a decência e o respeito próprios e com os outros.

Transformar-se significa fazer um esforço além do impossível para não ficar para trás, parado, escondido na acomodação, enquanto a vida corre e as outras pessoas lá fora evoluem. É um movimento difícil, requer desprendimento e não é qualquer um hoje em dia que está a fim de se desprender seja lá do que for. Mas, acredito que vale a pena, senão, não estaria aqui, escrevendo, crendo, fazendo planos, esperando por um futuro que não existiria sem mudanças.
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domingo, 6 de abril de 2008

Santa Teresa por Ele e Ela

De Simone Silveira Kaplan


Santa Teresa por Ele

Homem não chora. Quem chora é ela, Santa Teresa. Só ela. Eu vi. Eu, perdido entre foliões. O bloco das Carmelitas passando. A Ladeira derramou um rio de lágrimas minutos antes de Anita chegar. Tanta chuva, tanta dor.

Eu me arrumei todo. Olha que não sou de vaidade. Pensei em colocar a minha melhor roupa e acabei mudando de idéia. Queria encontrá-la com a cara limpa. Não usei brilhantina no cabelo nem minha camisa branca de linho. Aparei de leve a barba. Me enchi de esperança.

O que fiz foi esvaziar a mente. Desmarquei a birita e o jogo de cartas com a turma do Bar do Zé, despachei a empregada e dei-lhe uma gorjeta generosa. Desci e fui até a esquina. Comprei um maço de cigarros. De volta à casa, dispus o pacote e o coloquei na mesa ao lado da cama. Antes de tomar um banho, telefonei para o taxi e pedi que me pegasse às 19:00 horas. “Não posso me atrasar, informe ao motorista,” eu disse à telefonista da agência de taxi.

“Anita não é flor que se cheire”, pensei ao passar pelo o Aterro do Flamengo e ao avistar escassas pétalas de um rosa pálido nos galhos das árvores. Seguimos. As ruas estreitas e as curvas do morro surgiam aos poucos. Aquilo tudo era uma visão familiar. O taxi parou. Fui generoso novamente na segunda gorjeta do dia.

Pisei em Santa Teresa e as primeiras gotas de chuva, quase invisíveis, molharam a linha do bonde, os paralelepípedos disformes, as buganvílias agarradas no muro. Parece que foi ontem quando fugimos da multidão e das serpentinas, para trocarmos beijos extasiados e juras de amor.

19:20, ainda tenho dez minutos. Que fazer com estes dez minutos? Acendi um cigarro. Deixei o tempo passar.

Minha alegria desfaleceu-se aos poucos. O porvir foi assim, eu conto: dose de cachaça descendo quente pela garganta, o pandeiro tocando desafinado, "você manhã de tudo meu, você que cedo entardeceu, Você de quem a vida eu sou, E sem mais eu serei... Você um beijo bom de sal, você de cada tarde vã, Virá sorrindo, de manhã..."

No “Boteco do Mineiro” o músico passou o chapéu. Desta vez fui miserável. Paguei só a conta e economizei na gorjeta. Caminhei rua abaixo por entre os trilhos e confetes. Matutei com os meus botões, “ô mulher ingrata. Vá pro diabo que te carregue.”



Santa Teresa por Ela

Eu chorei . Derramei um rio de lágrimas. Ele não viu. Também não compreenderia.

Eu me aprontei toda e acabei mudando de idéia. Queria encontrá-lo como realmente sou. Não prendi meus cabelos, não usei batom vermelho. Não vesti aquela fantasia de cigana que ele gostava tanto. Só me preenchi de coragem.

O que fiz foi esvaziar a mente. Desmarquei a manicure das 11:00 horas e liberei a empregada. Fui até a esquina. Comprei um ramalhete de dálias alaranjadas. De volta à casa, dispus uma por uma no vaso e o coloquei na mesa ao lado da cama. Antes de tomar um banho, telefonei para o taxi e pedi que me pegasse às 19:00 horas. “Não posso me atrasar, por favor informe ao motorista,” eu disse à telefonista da agência.

“Osmar é traiçoeiro”, pensei ao passar pelo o Aterro do Flamengo e ao avistar árvores crescendo em solo frágil. Seguimos. As ruas estreitas e as curvas do morro surgiam aos poucos. Aquilo tudo era uma visão familiar. O taxi parou. Paguei o que devia. Desci.

Pisei em Santa Teresa e as primeiras gotas de chuva, quase invisíveis, molharam a linha do bonde, os paralelepípedos disformes, as buganvílias agarradas no muro.

19:10. ainda tenho vinte minutos. Quis acender um cigarro mas não tinha fósforo. Levantei-me e fui embora.

Meu choro ninguém viu. O porvir foi assim, eu conto: Sentei-me no meio-fio, tirei um livro de Freud de dentro da bolsa. Senti-me estúpida lendo Freud em plena terça-feira de carnaval. O abri em uma página qualquer. Li: Quando amam não desejam; e quando desejam, não podem amar. (Cap. IV, II,2).

“Meses sem notícias e agora quer me encontrar? Esquece!”, pensei. Desci a ladeira caminhando com passos tortos por entre os trilhos e confetes. “Todo caso de amor fulminante, mais cedo ou mais tarde passa. Dói mais passa”, suspirei aliviada.

Cinzas, só as da quarta-feira.

sábado, 5 de abril de 2008

Universidade do Amor

Isso mesmo senhoras e senhores. Quem disse que uma vida repleta de bons casos de amor – esses derramados de deixar cabelo branco, o peito cheio e a gente mais livre – não equivale a uma formação maravilhosamente diversa, pra não usar outros termos pernósticos, e que dá sustança pra gente continuar a andar mais sagaz e elegante?
Foi conversando de manhã com umas amigas que eu percebi que as três tinham aprendido a tomar café da manhã com seus amores, os atuais ou passados. Débora me explica que o ex-namorado combinava os elementos como ninguém e defendia a refeição primeira do dia com ardor. Raquel lembra com romantismo do ritual do café, o pinga pinga do coador velhinho, a toalha com pontos geográficos e as canecas diferentes de cada dia do amor da vida, daqueles que vão mas não passam. Érica se emociona porque o esforço do amado no preparo de misto quente e suco de laranja veio na hora em que mais precisava, mudança de cidade, sem pouso e com as malas pelo chão, o tempo do café era o carinho necessário.
E pode ser a única que exista. Porque talvez desses tempos todos, nenhuma delas se lembra do aluguel atrasado ou do texto que entregou, publicou, dos clientes que ganhou ou do quanto a conta bancária ficou mais ou menos gorda. O café da manhã, simples assim. Se trocarmos café da manhã por emoção, dá no mesmo.
Sim, há lugares mais ou menos propensos para a universidade do amor. Há quem diga que em São Paulo não dá pra praticar com o fervor merecido. Mas tem o argumento de que é possível, com mais rapidez em cada crédito. Aulas no nove da esteira. Ao invés de um café da manhã inteiro, um cafezinho de balcão na friagem do Alto de Pinheiros, uma conversa de carona na doutor Arnaldo passando pelas floristas do cemitério, uma volta corrida na Benedito Calixto pra depois se empanturrar de torresmo no consulado mineiro. Como diz a Nara, que voltou reencarnada em Fernanda takai, com açúcar e com afeto ta valendo.

quarta-feira, 19 de março de 2008

milagre

A história preferida de Rolando Telles era um milagre. O padre Raposo que desviou das balas de revólver. Numa estrada sombria, bem à noitinha, um capanga encurralou padre Raposo a mando de Honório, por desavenças de família. Padre Raposo ficou do lado da moça que se separou de Raul quando descobriu sua amante. Honório, pai da moça, nunca perdoou. Numa noite de abril, descobriu que padre Raposo partiria da fazenda Esperança para a cidade mais próxima, Nagibe, e nem perdeu tempo. O capanga sabia que o padre tinha horas fora de si. As beatas contavam os olhos virados pro alto, a fala embolada e uma vermelhidão que subia quando padre Raposo orava. Tinha muitos fiéis fervorosos, era quase milagreiro, ia ter de sumir uns tempos, mas o dinheiro era bom. Subiu a rampa que ia da porteira de Vacarias a Diabo Mole e ficou de tocaia. Ora ou outra toparia com o padre. O solidéu no meio da escuridão era a pista mais fácil para não se enganar com os peões locais, que largavam serviço nessa hora. O capanga fumou seu último cigarro de palha. Demorou.A fumaça subia lenta até o galho que ele podia ver da árvore em que se botou detrás. A fumaça era um ritual que gostava. No quintal, no lusco-fusco, ia para o quintal, botava o fumo bem pertinho, desenrolava a palha, alisava com o canivete que fora do pai, uma relíquia de família. Ajeitava o chapéu, dobrava as pernas, enrolava bem apertado do jeito que o fumo cheiroso não soltasse ponta e levava o cigarro na boca uma. A primeira baforada. A segunda já relaxava, soltava forte a fumaça na luz apagada do quintal, subindo, fazendo volta no telhado até sumir no pretume, sozinho, dever cumprido. E lá vinha padre Raposo, só devia ser, uma roupa cumprida só pode ser de padre, o solidéu, um porte de padre. Um trote ritmado, meio teimoso, coisa de padre, rompendo a estrada, pouca poeira, tinha chovido. Armou a arapuca. Tão logo padre |Raposo passou a curva, tava lá o capanga, armado de revólver e coragem. Tascou um discurso de matador. – O senhor pára, o senhor pára, o senhor pára. Um respeito devido a Deus.
Padre Raposo, que vinha fazendo orações no caminho, não se opôs. Brecou o cavalo na mansidão, esperando ver o que sabia. O capanga empunhou a arma, destilando a raiva necessária para não tremer. Foi a hora em que padre Raposo pediu.
– Só um instante, só um instante. E rezou rápido um padre nosso e tirou o solidéu no mesmo instante em que as balas zuniram pelo ar fresco da noite, saindo uma a uma na direção do alvo, riscando o breu sem meia volta na estrada . Uma a uma depositadas no solidéu qual caixinha de bola de gude, caíram assentadas no chapéu de padre Raposo que não gritava nem sorria, esperava, olhando pro alto, tal como as beatas contavam, um olho de vidro pro céu, um olho que não estava ali nem aqui, num lugar desabido. Foi então que o capanga se ajoelhou – Rolando Telles se ajoelhava – pediu perdão três vezes, contou seu mando, seus pecados, sua vidinha medíocre. Padre Raposo catou as balas no chapéu e pôs no bolso – estão até hoje com seu pai, Rolando Telles sussurava com mistério – perdoou o assassino e pediu praquela história não se repetir. Aprumou seu cavalo e seguiu para Nagibe, apertando as balas no bolso da batina às vezes.

segunda-feira, 10 de março de 2008

O texto abaixo não é novo, mas está atualíssimo.

Quem somos?

Acabou. A Semana da Mulher passou e voltamos todas e todos à realidade nua e crua. Nada de beijinhos, abracinhos, botões de rosas vermelhas e felicitações nos ambientes de trabalho e nas ruas. Quem ou quantos vão se lembrar ou ao menos pensar no verdadeiro motivo de ´comemorarmos´ o Dia Internacional da Mulher? Alguém se habilita? Pois é...

Nesse mesmo dia, em 2006, tive que explicar a uma mulher porque essa ‘comemoração’ existe. E essa mulher já tinha na época mais de 30 anos e não era inculta, muito menos ignorante. Bacharel em Direito, não exercia a profissão, mas era ativa no mercado de trabalho de São Paulo. Só que na ocasião não tinha sequer idéia do por que desse nosso dia.

8 de março de 1857. Operárias de uma fábrica de tecidos, em Nova Iorque, fazem uma grande greve. Elas ocupam a fábrica e reivindicam melhores condições de trabalho, equiparação de salários com os homens e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. A manifestação é reprimida com total violência. Elas são trancadas dentro da fábrica, que é incendiada. Cerca de 130 tecelãs morrem carbonizadas, num ato totalmente desumano.

Sinceramente, desde que conheci essa história passei a detestar receber rosas no Dia Internacional da Mulher. Ganhar flores, pra mim, é um presente ligado a romantismo afetivo, ou pior, a um pedido de desculpas descarado de um homem que traiu sua mulher (conheci vários confessos). Também não gosto das dezenas de felicitações que me chegam por e-mail. São todas muito parecidas: “somos lindas, maravilhosas, gostosas, cheirosas, perfeitas e necessárias” ou “temos um dia só pra gente, então vamos comemorar!!!!!!!”.

Enquanto isso, num escritório muito próximo daqui, uma mulher cabisbaixa, encolhida como um feto, tenta dar rumo a sua vida diante de uma advogada de um projeto social. Ela foi violentada durante toda a vida pelo pai e pelos irmãos. E o marido, segundo ela, nem é tão mau: “Ele me bate, sim, mas só um pouquinho...” Essa mulher, muito provavelmente, recebeu uma rosa de presente quando chegou ao trabalho de manhã. E o que é feito por mulheres assim? Porque ela não considera tão mau o homem que ´bate pouquinho´?

Porque ainda somos hipócritas. Porque ainda preferimos fechar os olhos ante o desconforto da realidade. Como aquela deputada que entra num evento na semana da mulher e diante de um auditório lotado de mulheres que realmente fazem algo de útil pela questão do gênero despeja um discurso pra lá de antigo, tipo ´a luta continua´, e em seguida sai de fininho. Gostaria de saber o que ela ou qualquer outra faz de efetivo pelas milhares de mulheres que ainda sofrem muito nesta sociedade de cultura machista. Ou somente providenciam rosas para parabenizá-las e enaltecer sua feminilidade.

O Dia Internacional da Mulher é um dia de reflexão, de pensarmos, nós mulheres, no que podemos fazer para melhorar nossas vidas e das nossas semelhantes. Dia de sair do conforto de nossos lares felizes para levar um abraço, um afago, um par de ouvidos àquelas que padecem diariamente de horrores que nem podemos imaginar. Dia de arregaçar as mangas e de ter boas idéias, propor mudanças, programas, projetos. De mostrar ao mundo que somos mulheres sim, com muito orgulho, não apenas para o deleite dos homens, porque somos cheirosas e gostosas, mas para viver com o mínimo de dignidade que qualquer ser vivo merece e tem direito.
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quinta-feira, 6 de março de 2008

Carta de Havana




“Este país não se chama Cuba, se chama Paradoxo. País muito curioso para nativos e estrangeiros, aqui se juntam os imigrantes europeus mais vis com os escravos negros vindos da África, com os chineses arrancados do formigueiro asiático, mais os aventureiros e falsos idealistas que vêm em Paradoxo uma droga, um alívio para suas frustrações”. O primeiro parágrafo de “La Visita De La Infanta”, do escritor cubano Reinaldo Montero, é meu ponto de partida. Montero me leva gentilmente ao bairro chinês de Havana, onde há uma foto de Fidel Castro na parede, comendo de palitos, diante de uma garrafa de Coca-Cola daquela mais redonda e tradicional. O registro precioso foi a única foto que sumiu na volta da viagem. Mistério. O bairro chinês está em Havana Velha, uma convulsão arquitetônica mais a sensação de que teria sido bombardeada na noite anterior.
A decoração é um kitsch sem tamanho. Ao meu redor, nenhum estrangeiro. Um privilégio num país em que há uma moeda para os nativos e outra para os gringos. A fila para o famoso sorvete Copelia dobra os quarteirões se o pagamento for em pesos cubanos. Nós pagamos em pesos conversíveis – o dólar desmascarado – e saímos chupando sorvete em frente a dezenas de pessoas na outra fila.
Para o ídolo-herói-poeta José Marti, a alma cubana é uma senhora velha que todos os dias faz a mesma coisa, e do minguado salário tira quatro partes iguais para parentes distantes. Um alívio que não sejam mencionados salsa, rum ou chicas. Nem se pode atestar oficialmente – estatísticas não existem em Cuba – mas o busto de José Marti é a imagem mais reproduzida naquele país. Em cada escola, José Martí recepciona as crianças do lado de foram, normalmente um busto em gesso. Tal como em tempos de campeonato, só se fala em beisebol, só se joga beisebol.
Amargura é o nome da rua que leva até a praça onde a ONU tenta restaurar as fachadas de casas cubanas para os turistas. O sonho de Juan é conhecer o Rio de Janeiro. Mas sou alertada que se eu fosse francesa, Paris seria o alvo. Ensolarada, Havana é Paris tomada, enfim, pelos imigrantes, canta um poeta local. Enca, com medo, segue lendo livros que lhe presenteiam os turistas espanhóis. “Alugar o quarto da minha casa é uma universidade”. Varadero não é Cuba, para o professor de Matemática Tony. “As vezes corro, corro 14 km e sinto que estou preso”. Tony mantém um celeiro no quintal de casa. No lugar de milho, livros proibidos pelo regime e charutos dados pelos amigos que trabalham nas fábricas.
Alfredo interpreta Xangô num show musical para turistas e nem se importa com o número de horas do discurso de Fidel Castro. “Ele sempre tem alguma coisa importante a dizer, normalmente no final”.
Os meninos atravessam correndo a via mais movimentada de Havana, pulam sobre a mureta do Malécon e se atiram, de cabeça, num quadrado de água do mar entre rochas pontiagudas. O exercício de precisão resulta em palmas da platéia familiar, sob um sol fortíssimo, ainda que tecnicamente, seja inverno. Amarelo, azul e rosa. Ao final do dia, a vontade é entrar numa caverna.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Meu sábado por um cisco
A fragilidade humana, sem aviso prévio


Sábado à noite. Depois de uma semana inteira de expectativa pelo fim de semana e de um dia inteiro de trabalho duro, entro no banho, me preparando para uma longa noite de diversão, quando um cisco encontra um cantinho do meu olho direito. Do cantinho, move-se para debaixo da pálpebra superior, bem no meio, me impedindo até de piscar. Para quem esperava uma noite de puro relax, foi uma questão de segundos para viver o fim do meu sábado, por um cisco.

Em 15 minutos estava no hospital, de olho fechado, segurando-o com a mão, para não sentir dor. Deito na maca, luz em cima, médico com o cotonetes pronto para entrar em ação, abre o olho e ... "É, pelo jeito esse não faz parte do grupo caseiro, aquele pretinho, poeira da CSN. Não consigo vê-lo". Anestésico, abre o olho de novo e cotonetes e jato de soro. Nada. Saio do hospital com um 'baita' curativo e a recomendação de voltar no dia seguinte, caso o cisco ainda permanecesse lá. "Agora você precisa dormir", disse o médico, no meu sábado, às 11 da noite.

Depressão. Desânimo. Uma sensação de fragilidade que só aparece nesses momentos. Um cisco, invisível a olho nu, tem a capacidade de fazer tamanho estrago. Jamais tive tanta certeza que somos menores que átomos nesse universo infinito que nos rege. Ou seja, "muito pouco ou quase nada". Estamos à mercê de forças superiores, a qual chamo de Deus, outros de Alá, Oxalá, Jeová, ou somente força da natureza. Algo ou alguém oculto que fica lá, a espreita, esperando o momento certo de dizer "fica aí que eu tô mandando", como me mandaram ficar em casa naquele sábado.

E neste momento em que falo de fragilidade lembro de situações do dia-a-dia em que isso fica claro e às vezes hilário. Se me senti arrastada à cama por um cisco, o que dizer da frase "não posso ver sangue"? Isso mesmo. Anos atrás (não preciso dizer quantos, né?) trabalhava no Hemonúcleo de Barra Mansa (ainda era setor de Hemotransfusão) e recebia doadores de sangue todas as manhãs. Não era raro um marmanjo desmaiar antes, durante ou depois da doação. Falo em marmanjo porque eram aqueles homens enormes, musculosos, que costumamos chamar de armário duplex seis portas. Fragilidade é para qualquer um; ninguém está livre. Nem aquele bombeiro másculo que precisou de atendimento dos profissionais do Pronto Socorro para acordar.

Atualmente estamos à mercê de mosquitos. Esses pelo menos são maiores que ciscos. A diferença é que cisco não provoca a morte de ninguém. Pelo menos desconheço algum caso. E é mosquito da dengue pra cá, mosquito da febre amarela pra lá. E nós, seres humanos, numa movimentação constante para ver esses bichinhos minúsculos cada vez mais distantes do nosso convívio. Porque? Somos frágeis a eles, completamente impotentes àquela picadinha que poderia ser perfeitamente inocente. Afinal, somos gigantescos, não?

Somos gigantes, sim, da arrogância e da prepotência. Não nos dobramos a regras e leis, debochamos de tudo o que possa minimamente limitar nossa liberdade, afinal, "a vida é muito curta e a gente tem que aproveitar". Planejamos nossas vidas como se fôssemos sozinhos no mundo, sem o próximo, sem a certeira Lei de Murphy. E quando menos esperamos estamos presos à caminha quente, numa noite também quente de sábado, que muito merecia um chopp, por conta de um cisco.

E se a gente parar para pensar, é justamente à mercê de seres minúsculos, só visíveis em microscópios, que nós humanos acabamos. As piores doenças, que levam milhares de pessoas à morte, são causadas por vírus e bactérias, que estão aí, na natureza, desde que o mundo é mundo, aterrorizando nossas vidas. Aids, febre amarela, dengue, gripe aviária, varíola (alguém lembra desta?). E um monte de gente grande sucumbindo a essas viroses, que arrasam todo o orgulho, nariz empinado e queixo pra cima.

Um cisco. Entrou, saiu, ainda bem. E me deixou a certeza de que sou nada, ou quase nada, e agradeço diariamente às tais forças superiores que tenha ficado apenas, apenas num cisco. E que perdi somente uma noite de sábado.
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Vergonha de quê?

"Jim, how beautiful you are!"
de Nora Barnacle a James Joyce, morto, pelo visor do esquife


Que por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, todo mundo sabe. Mas por trás de uma grande mulher, existe o quê? Um homem pequeno? Um ego masculino domado? Amansado, sim, mas a pão-de-ló, cama, cozinha e roupa lavada, café da manhã na cama. Pequeno? Talvez. Mas, certamente, raro. Nem sempre paciente.
"Bem, Jim está escrevendo seu livro. Vou pra cama e este homem se senta no quarto ao lado e continua rindo do que ele mesmo escreve. Então eu bato na porta e digo, Jim, olha, pára de escrever ou então pára de rir." É meia-noite, num certo apê em Zurique. Mas pelo que sei, poderia ser aqui, ao meio-dia, nesta sala apertada do Alto Leblon, e esta fala na boca do Alan, é, gente. Sim: é duro ser Noga e Nora ao mesmo tempo.
Mas quando leio Ulisses, me esqueço de tudo. Meu riso deliciado evoca o eterno riso deliciado daquele homem de outrora por trás do texto: um eco póstumo; e-terno. No que se refere à escrita, me identifico com J.J. em quase tudo. Escrevo tão bem quanto ele, mas se ele nunca tivesse escrito, eu mesma jamais escreveria. Sou arrogante como ele, detestada, ousada e iludida quanto à própria importância como ele era, bem: neste último aí digamos que eu esteja sozinha agora, porque Joyce, todo mundo sabe, transcendeu faz tempo a própria miséria em que acreditou a vida inteira ter vivido. Me entrego. Me arrebento. Escrevo cartas e artigos (meio desesperada, às vezes: desesperançada) explicando o que escrevo. Imponho ao leitor e aos críticos a jactância da minha literatura, e se recebo de volta não mais que um ostracismo descrente, não me calo em tréplica. Jamais me calo, esta é que é a verdade. Só quando canso de mim. Todo escritor faz isso, não é? E se não faz, de duas uma: ou porque não pode, ou porque não se arrisca. E se não pode e nem se arrisca não se reconhece escritor. É isso.
Em tudo o mais, reconheço, difiro dele. Não bebo demais. Não traio. Não sacrifico a família ao meu autocentrado delírio, bem. Isso quem sabe é por não ter família. J.J. teve patronos, ou melhor, patronas: três mulheres que, por trás da insistência dele, preservaram para o futuro a impetuosidade tão (im)própria da boa literatura. Uma delas, dizem, custou a Joyce dez anos da vida dela e quase um milhão de dólares, ops, não seria o contrário? Quem doou o quê, e a quem? Bem. Hoje em dia, vocês sabem, ninguém doa nada, doa a quem doer. Ô miséria.
Aos meus herdeiros, não deixo nenhum legado em dinheiro, nem em propriedades, nem mesmo num mero gesto de boa-vontade com o mundo. Não. Deixo apenas a minha jamais plenamente reconhecida genialidade: livros publicados, outros inéditos, todos não-lidos, poucos compreendidos, escritos esparsos acumulados. E está de bom tamanho, me acreditem.
E quanto a este texto? Acharam difícil de encarar? Acreditar que alguém pudesse ter a si próprio em tão alta conta? Pois é. Aprendi com Joyce, faz pouco tempo. E a ninguém interessa se esta onda indomável de sou-mais-eu reflete, simplesmente, um interior em conflito — uma incurável e contagiosa mania de ser humilde —, que nega teimoso tudo isso. Vale mesmo o que está escrito. Vou ter vergonha de quê? De quem? Pra quê?

Leia online: Crônicas irônicas de Ulysses

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Nunc et in hora

Não sei não. Faz tempo que tenho sentido o maior medo de prazos e falsas esperanças do tipo "agora vai". Já vi muita gente boa sucumbir por causa disso. Mas lendo a revista do Globo neste domingo, fica difícil evitar um vigoroso "agora vai" rugindo de dentro do velho peito, gerado na mágica década de 1950 e já paralá de caído. Quando o mundo já esperava que a gente de vez desistisse, ou se aposentasse, desse vez a quem de direito, não sei não: olha nóis ai ôtra veiz. Ficou difícil.
Me lembro de um comentário esnobe de S.Z., meu então assessor de imprensa, impressionado com minha decisão pospólen de trabalhar em casa, atitude vanguardeira que na época significava: desempregada. fodida. desamparada. Pois na Revista de hoje reportagem nobre retrata projetos de escritório doméstico para quem... decide trabalhar em casa, ô mulher posmoderna, sô. Inda que tardia.
Inda que tardio também o renascimento de gente que fez história enquanto eu tentava fazer uma história, muitas vezes, dando uma mão a eles, ou pegando carona pela mão deles, como na expo de jóias na late Mr. Maravilhoso do paugrandense Luis de Freitas, nos idos de 1987, lá se vão vintinho. Ou fazendo do Cochrane's Crocker meu então escritório noturno, ah, tá bom: todo mundo que freqüentava aquele bar vinha com essa entre um uísque e outro, e curioso ou não, coincidência ou não, andei escrevendo sobre o Crocker's Cochrane's ontem mesmo, a lembrança avivada pela visita do Dr. João* — a.k.a. barman Johnny — aqui em casa, quando falamos do "falecido De Gang", é sério: houve quem pensasse (não eu) que ele houvesse morrido.
Enfim. Lá vou eu de novo tentando a minha casquinha na lasquinha tardia de notoriedade que espicaça meus companheiros da então estrada, ou, pelo menos, meus contemporâneos na falta almejada de fama. Vai chegando a nossa vez tardia no bloco pós-carnavalesco "A Fila Anda". AFE.
Vocês eu não sei, mas tenho me sentido cheia de energia. Isso porque, provavelmente, depois de anos funcionando com dois cérebros disfuncionais — o de mamãe senil e o meu — finalmente substituí um deles por um mais produtivo, canalizando mensagens literais de James Joyce, eita centro de mesa bom esse!, quer dizer, centro espírita de mesa, daqueles que Joyce tão jocosamente descreve no Ulisses, ao transmitir mensagens de mortos sobre sapatos perdidos: pra levantar moral de escritor fracassado não tem encosto melhor, fala sério. Mesmo que o texto psicografado fique a anos-luz do original canalizado, dá assim, digamos, uma pontinha de esperança. Um gosto amargo e doce de ilusão porética à la Stephen Dedalus: "E minha vez? Quando?"
Pois é, gente. Junto com essa meia dúzia de três ou quatro que anda tentando se levantar dos mortos consta essa que vos fala, antiga designer, antiga metida, antiga vanguardinha do Brasil hoje metida a escritora, é, gente: antes fosse namoradinha, mas como se diz... nunca é tarde para...
Nem que seja na hora da morte, é, tradução literal da oração latina aí de cima, puro equívoco católico apostólico que eu pensei que dizia: antes tarde do que nunca, ah, bom: nunc em latim quer dizer "agora": antes agora do que nunca, não é mesmo? Ops: na hora da morte amém.

* atual doutorando em cinema pela Sorbonne, que fique bem claro: tem gente que consegue meesmo dar a volta por cima

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O paraíso é uma droga

Minha tia octogenária, tadinha, avessa a médicos desde criancinha, amanheceu no outro dia doentinha: não deu mais pra escapar deles. Convocado, o doutor respondeu ao chamado com um coquetel formado de sete pilula(s?)zinhas de cores sortidas, entre elas o famoso e inevitável antidepressivo.
Por um lado aplaudi: titia anda mesmo muito deprimida. Mas, por outro, me preocupei. O tal do remédio tinha feito parte do repertório inicial de drogas que fez bom coro à ruina humana em que mamãe se transformou, tadinha, e acabei desistindo dele: um bom e eficiente provocador de pesadelos.
Tudo isso teria acabado por aí, fala sério, relegado a assunto irrelevante por esta que vos fala e que prefere se atirar do edifício a botar pra dentro do cérebro um antidepressivo. Mesmo assim sei sim, sei mais ou menos do que estou falando, desde que fui nomeada curadora única e absoluta das receitas controladas da família. Outro dia, na drogaria, a vendedora se espantou com o volume delas que apresentei, é, minha filha, é duro controlar a doença (mental) alheia, é sim.
Mas tudo isso teria acabado por aí, fala sério, se não tivesse seguido por um papo onskype com uma jovem brasileira de nossa boa família, bem criada, bem casada e bem nutrida e mãe de bons filhos, que confessou frente ao contra-entusiasmo da tia que ela mesma consumia o tal remédio há mais de três anos. Espanto. Perplexa. Já tinha ouvido isso antes, me entendam, de ex-marido cavalarmente insensível, como é que você, uma moça normal, de boa família, bem criada e bem nutrida e mãe de filho nenhum tem tantos problemas? Vive tão deprimida? Pois é: me revoltei. Me revoltei e me enfiei por anos na terapia, mas mesmo correndo o risco de parecer antiquada, não boto nem morta pra dentro do cérebro um antidepressivo. Prefiro me atirar do edifício, e de um jeito ou de outro, não acredito mesmo no paraíso.